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09/02/2021

Apesar da pandemia, setor automotivo se recupera e chega aquecido ao final de 2020; inovação, sustentabilidade e segurança norteiam o debate acerca do que está por vir nos próximos anos

“Estamos passando por uma revolução”, pontua Milad Neto, Business Development Manager na JATO Dynamics, uma vez que, apesar da perspectiva de queda nas venda por conta da pandemia, os dados dos últimos meses indicam uma recuperação em “V”. De acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), em setembro, as vendas ao varejo cresceram 9,55% sobre o mês de agosto, considerando automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motocicletas e implementos rodoviários. 

Em relação aos emplacamentos, setembro de 2020 apresentou uma retração de apenas 2,57% quando comparado com o mesmo mês em 2019, ou seja, o mercado já opera em níveis de venda pré-pandemia. “Observamos a recuperação em ‘V’. De qualquer forma, temos uma recuperação. Acreditamos que em 2021 e começo de 2022 vamos ter um patamar entre 80% e 90% daquilo que era praticado [pré-pandemia]”, afirma Neto.

Segundo Ricardo Bacellar, líder da KPMG Brasil, conforme dados da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), a pandemia de Covid-19 implicou em uma devolução de 80% da frota de veículos alugados por motoristas de aplicativo, além da redução de 25% nos contratos de clientes frotistas com locadoras. “Consolidamos uma visão de que o mercado está passando por esse momento difícil, com uma condição razoavelmente saudável”, explica Bacellar, para quem a inovação é fundamental ao pensar no futuro do setor. Com mais pessoas circulando, em consonância com o movimento de retomada, o cenário referente aos motoristas de aplicativo apresenta, hoje, níveis pré-pandemia, visto que o setor recuperou integralmente suas atividades. 

De acordo com Paulo Miguel Junior, presidente da ABLA, as pessoas começaram a circular, porém, evitando o transporte público. Nesse sentido, o transporte compartilhado apresenta-se como o mais adequado às necessidades de grande parte da população que precisa se locomover. Ainda sobre esse cenário, a renegociação dos contratos das frotas corporativas terceirizadas e o fomento às atividades das empresas de logísticas contribuíram para mover o mercado.

Para o presidente da ABLA, um ponto crucial para as locadoras seguirem com sólidos modelos de negócios é a inovação. “Tecnologia é fundamental para a locação. Hoje, as locadoras que não estiverem no mundo digital, com sistemas integrados às suas operações, estão fadadas ao insucesso”, avalia. Conforme Miguel Junior, “o gestor de frota é fundamental dentro de uma empresa, para administrar não só a frota própria como a locada”, todavia, “fazer a gestão de uma frota de locadora livra ele de muitos inconvenientes. Acredito que tanto motoristas de aplicativo quanto veículos de terceirização de frota vão crescer, é uma grande perspectiva para o setor. Novos players não nos assustam, desde que venham com condições igualitárias de concorrência”.

Patti Earley, presidente da Associação de Gerenciamento de Frota da América do Norte (NAFA), analisa que, em um cenário de intensa virtualização da vida, as operações de frota foram severamente impactadas. Contudo, o uso do automóvel desponta como uma medida importante de proteção. “Usamos mais veículos porque estamos evitando que as pessoas viajem juntas. Uma das grandes questões que veremos é as frotas percebendo quantos veículos têm, tentando ajustar a quantidade para as suas reais necessidades”, analisa. Para os próximos anos, é fundamental que os condutores, sobretudo os gestores de frota, estejam atentos às inovações tecnológicas. “Temos muitos dados dos veículos, há oportunidades para usarmos esses dados. Estamos sendo inundados com dados de telemática, precisamos descobrir a melhor maneira de usá-los para o desempenho da frota. A tecnologia na indústria de frotas é um fator importantíssimo”, indica Earley.

Outro fator primordial para a evolução da frota é a sustentabilidade. Nesse sentido, Earley salienta que as soluções são diferentes para cada segmento. “Automóveis elétricos são opções excelentes para algumas frotas, mas não funcionam para todas. Vemos muito interesse em propano, gás natural comprimido; minha frota usa biodiesel, algumas frotas usam etanol, então, acho que depende do propósito, do tamanho, mas há soluções disponíveis para todas.”

Iniciativas conjuntas de governos e empresas impulsionam as frotas a serem mais sustentáveis. “A maioria das organizações percebe que precisamos fazer algo para ajudar a aliviar as mudanças climáticas e diminuir a produção de carbono. Minha empresa é muito verde, então, é natural que tentemos fazer com que nossa frota seja verde também”, ou seja, como exposto por Earley, a sustentabilidade incorporada aos propósitos de uma companhia e a integração de tecnologia à gestão de frota podem garantir um futuro promissor. Sendo assim, John Dmochowsky, que nos últimos anos foi gerente de frota global da Mondelēz, indica a importância dos gestores de frota estarem alinhados com as tendências e desdobramentos globais que possam impactar, em maior ou menor medida, suas operações. Um destaque é o “Green New Deal”, proposta do partido estadunidense com o objetivo de desenvolver mudanças que minimizem o aquecimento global, como suprir toda a demanda por energia elétrica com fontes renováveis, substituir os meios de transporte por veículos zero-emissão, e investir em transporte coletivo. Dmochowsky evidencia a importância de se manter atualizado em relação à legislação. “É fundamental seguir as tendências de mudanças das comunidades legislativas dos países. É imperativo estar alinhado com as regulamentações, especialmente, as relacionadas à emissão de CO2”, explica.

Tendências globais

Apesar das particularidades de cada frota e dos distintos territórios, algumas tendências impactam globalmente, sobretudo, no caso das multinacionais. A pesquisa Global Fleet 2020 confirma, por exemplo, a importância da telemática, visto que 80% das 113 empresas multinacionais entrevistadas – que representam 8,5 milhão de colaboradores e 1 milhão de veículos – informaram que usarão a telemática em três anos, para gerenciar as frotas e motoristas. Steven Schoefs, do time de comunicação da Global Fleet, comenta a importância da telemática e da conectividade para a medição e interpretação de dados de comportamento e dos carros. 

“Há uma tendência para vermos cada vez mais que a tecnologia pode colaborar com benefícios na gestão de frota”, ademais, há “interesse na eletrificação, não só na América Latina, mas em todo o mundo. Pensamos na redução de CO2, com a ideia de aumentar os veículos elétricos, híbridos ou outro tipo de veículo ecológico em alguns anos. Os tópicos de sustentabilidade e eletrificação estão na agenda, contudo, neste momento a segurança é o mais importante. A maioria das pessoas está realmente interessada no tópico da segurança, é uma prioridade”, afirma Schoefs. 

Todavia, apesar de alguns aspectos serem globais, a segurança nem sempre é globalizada, já que a frota deve ser selecionada considerando as singularidades regionais. Por fim, de acordo com a pesquisa Global Fleet 2020, Schoefs indica as decisões concernentes aos gestores de frota que estão alinhadas a diferentes níveis: a locadora de preferência, as metas de redução da emissão de CO2 e a escolha de uma ferramenta (tecnologia) são globais; a escolha do fornecedor de combustível, as regras para os motoristas e a elegibilidade do carro são nacionais; já as metas de segurança, a marca dos veículos e o método financeiro são regionais.

Fonte: por Guilherme Popolin para PARAR Review

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