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06/05/2019

É difícil encontrar alguém que, na infância, não tenha aprendido a pedalar. Ou alguém que nunca tenha recebido uma encomenda, seja da farmácia ou da padaria, por uma bike. Tem também os que reservam suas horas de lazer para um passeio de bicicleta, no parque da cidade ou na orla da praia. O fato é que é muito raro se lembrar de alguma fase em que as bikes não estivessem presentes – bicicleta não é novidade.

Mas, novidade mesmo é saber que bike é, além de tudo isso, modal de transporte. Agora, entre carros, ônibus e carona, ir de bicicleta pro trabalho é mais uma opção. O desafio, no entanto, é criar uma estrutura para tornar este um modal mais acessível a todos.

Tornar a bicicleta um modal acessível exige otimizar planos de mobilidade de empresas e até de cidades inteiras – adaptações necessárias para se tornarem bike friendly.

E, ao contrário do que muita gente pensa, ser uma cidade ou empresa bike friendly é mais do que oferecer ciclovias. Quem anda de bike sabe que é necessário um suporte que vai além: uma empresa que quer incentivar o uso de bikes dos seus funcionários deve, por exemplo, disponibilizar um bicicletário, um vestiário e até um auxílio manutenção para as bicicletas – é uma opção inclusive de substituir o vale transporte.

Para as cidades, um trânsito organizado e seguro é mais que necessário: as ruas precisam ser organizadas e bem pavimentadas e os motoristas conscientes de que estão dividindo espaço com os ciclistas, e isso vale principalmente para as áreas que ainda não tem uma ciclovia disponível.

Ademais, o planejamento cicloviário depende de um grande passo: nenhuma cidade pode ser considerada bike friendly sem um bom sistema de bikesharing. O incentivo ao uso das bicicletas cresce quando a população tem uma acesso fácil e barato ao modal e quando ele pode estar interligado a outros modais – algumas estações de metrô em São Paulo, por exemplo, disponibilizam o aluguel de bikes.

O desafio, no entanto, é esperar que a iniciativa de tornar-se uma cidade bike friendly parta somente dos órgãos públicos. Por isso, muitas empresas estão trabalhando no propósito de consolidar as bikes como opção de transporte, seja disponibilizando os modais para sua empresa ou para toda uma cidade.

 

Bikesharing pelo mundo

É esse o objetivo da gigante chinesa Mobike: expandir o bikesharing pelo mundo. A empresa é a maior do mundo na área: a trajetória começou em 2015 e desde então só tem crescido – hoje, a operação envolve mais de 200 cidades de 18 países, onde estão espalhadas 9 milhões de bikes e deve chegar a São Paulo ainda no segundo semestre de 2018. Chris Martin, vice-presidente da empresa, conta que a expansão envolve alguns desafios: a negociação é diretamente feita com as cidades e não com países inteiros, por isso, esse é um processo longo, apesar de não ser difícil. As diferenças culturais entre as cidades que vão receber as bikes também impactam na hora da negociação: é preciso pensar em novas estratégias de acordo com o público, segundo ele.

Para chegar ao Brasil, a primeira cidade escolhida foi São Paulo que, apesar de toda a burocracia, apresentou uma prefeitura visionária e proativa na implantação do projeto. A Mobike chega para integrar um plano da Secretaria de Mobilidade e Transportes, que envolve outras empresas de bikesharing.

A Mobike se destaca ainda pela tecnologia: a companhia foi a primeira em oferecer o aluguel de bicicletas em um sistema dockless, ou seja, sem cadeados ou estações. As bicicletas ficam espalhadas pela cidade e são desbloqueadas via app, a partir de um código QR. A preocupação que surge é quanto a segurança das bikes: sem uma estação fixa, a chance de furtos e roubos é maior, mas a Mobike tem uma estratégia para combater o vandalismo. As bikes são todas fabricadas pela empresa, com peças exclusivas e que só funcionam nas bicicletas da marca e com um sistema de GPS integrado.

O dockless, todavia, é um desafio também para a reeducação dos usuários. É preciso um controle de onde as bikes são deixadas após o uso, já que elas podem acabar atrapalhando quando deixadas no meio da calçada ou até nas ruas. Por isso, o GPS também serve para manter a equipe atualizada em relação a posição das bicicletas e, quando necessário, distribuí-las melhor de acordo com a demanda ou segurança do local.

 

Iniciativa brasileira

Renato Freitas e Ariel Lambrecht são os fundadores da recém criada Yellow, mas já estão no ramo da mobilidade há anos: a 99, aplicativo de táxi que agora opera nas mãos de chineses, também foi ideia da dupla que agora, em parceria com Eduardo Musa, está fundando a startup de bikesharing.

A inspiração para o novo negócio veio dos tempos da 99, explica Renato Freitas: “Quando eu ainda estava na 99 era apaixonado por um problema: Nos horários de pico, em regiões como a Vila Olímpia, as ruas estão lotadas de carros parados. Não tem tecnologia que resolva isso em curto prazo, não dá pra resolver esse problema com melhores algoritmos de rotas ou de encontrar motoristas mais próximos. Mas, nestes mesmos lugares, as ciclovias estão livres”.

A Yellow também integra o plano da Secretaria de Mobilidade e Transportes de São Paulo e vai colocar as bicicletas nas ruas com o sistema dockless. O plano piloto da Yellow deve começar em agosto de 2018, colocando 20 mil bikes nas ruas da capital paulista. O projeto, explica Freitas, é resultado de uma parceria com órgãos públicos que querem preparar as cidades para esse novo mindset. “Nós queremos trabalhar juntos com os órgãos públicos para analisar bem os dados e entender quais tipos de modificações na infraestrutura são necessárias para cidade funcionar melhor”, explica ele. Quanto ao vandalismo, a Yellow mantém a estratégia da Mobike: as peças das bicicletas serão incompatíveis com outros modelos, todos as bikes são rastreadas e uma equipe estará nas ruas cuidando da disposição das bicicletas e da manutenção das mesmas.

Falando em manutenção: Freitas explica que as bicicletas foram pensadas para serem simples, mas de qualidade, preparadas para os possíveis desgastes que ficar ao ar livre possa causar, além disso, os pneus funcionarão sem câmara de ar, evitando furos. A simplicidade no modelo das bikes também tem outra razão, o fundador da startup conta que a filosofia da inclusão é uma das prioridades da empresa. “Bikes mais simples permitem um aluguel mais barato”, garante Renato.

Segundo Renato Freitas, é preciso repensar a mobilidade como um todo para fazer o plano funcionar. O uso das bikes oferece uma nova opção de modal para trajetos muito longos para serem feitos a pé ou muito curtos para serem feitos de carro ou de metrô ou, ainda, uma opção de deslocamento entre estações de metrô e o local de trabalho, por exemplo: “As pessoas que andam 20 minutos para chegar na estação de metrô podem ir de bicicleta e chegar em menos de cinco minutos. Isso é ganhar meia hora todo dia na sua vida”.

 

Você usa bikesharing no dia a dia? Conta pra gente. 

 

Por: Ana Luiza Morette, Jornalista para PARAR Review. 

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