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10/02/2020

Desde que os carros foram inventados, há mais de 100 anos, o modelo de negócio das montadoras praticamente não se alterou. E o carro autônomo, onde ele se encaixa na história?

Em geral, fábrica produz um carro e repassa para um consumidor final, na maioria das vezes com a intermediação de uma concessionária. Então, no ano seguinte, a montadora lança um modelo mais moderno e recomeça o seu ciclo de vendas.

Os motores se tornam mais potentes e eficientes, o design fica mais atraente, novos itens de segurança e conveniência são adicionados, mas, na essência, o carro ainda é bastante similar àqueles automóveis vendidos no começo do século 20. E a forma como eles geram dinheiro para as montadoras, também.

A indústria automobilística é também conhecida como a indústria das indústrias, “não somente pelo seu tamanho e importância econômica, mas também por todo o impacto e influência que tem sobre inúmeras áreas da economia como commodities, energia, crédito, tecnologia, etc.”, detalha Ricardo Longo, da Onoffre Consulting.

E tudo isso muda quando começamos a avaliar o que acontecerá nos próximos 10 ou 20 anos com o desenvolvimento da tecnologia dos carros autônomos. A ideia de ter um carro que se conduz sozinho e que pode receber updates durante o seu ciclo de vida vira de ponta cabeça tudo o que conhecemos sobre a indústria automotiva.

Isso quer dizer que as montadoras irão acabar? Provavelmente não. Alguém ainda precisará fabricar todas essas peças e colocá-las para funcionar em conjunto. Carros ainda pedirão por serviços de manutenção, componentes serão trocados e melhorias técnicas e mecânicas ainda continuarão em desenvolvimento. Atividades como o design também seguirão avançando dentro do pátio de gigantes como Ferrari ou Volkswagen. Mas será que tudo isso continuará gerando dinheiro como antes, num futuro de carros autônomos e compartilhados?

“Se você prestar atenção aos mais jovens, muitos deles já não compram carros, especialmente se eles viverem em grandes cidades (…) Se estou morando em Nova York, eu não quero pagar para estacionar o carro ou lidar com uma série de outros problemas que aparecem quando tenho um carro”, atesta Sobhan Khani, responsável pela área de mobilidade da Plug and Play, a maior aceleradora de startups do planeta.

O modelo de negócio das montadoras (fabricar, vender, recomeçar) perde um pouco do sentido quando as pessoas deixam de comprar automóveis com tanta frequência. Ainda assim, ninguém está melhor posicionado do que elas para realizar as atividades relativas à fabricação dos veículos do futuro.

Carros autônomos e o futuro do mercado

Os especialistas trabalham com cenários variados com relação a se vamos continuar comprando e dirigindo carros nos próximos anos. De acordo com Sven Beiker, professor da universidade de Stanford e diretor da Silicon Valley Mobility, ainda deve demorar algum tempo para que carros totalmente autônomos nos conduzam de um ponto ao outro da cidade – o que não quer dizer que não aproveitaremos os seus benefícios já nos próximos anos. “Em 2020, teremos vans autônomas que nós realmente poderemos usar”, afirma Beiker, considerando o cenário dos Estados Unidos. De fato, a Waymo (leia-se Google) recentemente encomendou 62 mil minivans da Chrysler e mais 20 mil SUVs elétricas da Jaguar Land Rover para começar a operar com esse tipo de modal em 2020. 

Se dependêssemos apenas da tecnologia, tudo isso aconteceria ainda mais rápido. Cerca de 45 bilhões de dólares foram gastos no mundo todo, no ano passado, para desenvolver carros autônomos. Esse investimento tem sido realizado por montadoras e, principalmente, empresas de tecnologia como Uber, Google e Apple. Dentre os players da velha guarda, quem se destaca é a GM, que já pediu permissão para trafegar nos EUA, a partir do ano que vem, com um modelo sem volante e sem pedais chamado Cruise EV.

Por que as empresas estão investindo com voracidade nessa história do carro autônomo? “Estamos no meio de duas tendências muito interessantes – de um lado temos a mobilidade sob demanda e do outro temos os carros autônomos”, descreve Deepti Tiku, Diretora de Marketing da Ridecell, startup que opera serviços de carsharing para gigantes como a BMW, por exemplo.

Para ela, aplicativos como Uber e Lyft são bons complementos para o uso de um veículo próprio, mas eles não têm sido capazes de substituir totalmente a posse de um carro. “O ponto de mudança será quando a autonomia entrar no jogo. Quando olhamos para um serviço de ridesharing, 70% do custo se refere ao custo do motorista”, complementa. Sem um condutor, esses serviços custariam menos de um terço dos valores atuais. O mesmo acontecerá com o transporte público, por exemplo, em uma proporção um pouco menor.

Considere um levantamento recente da Ipsos, que indicou que o Brasil é o líder no quesito “quilometragem rodada por pessoa”, dentre 20 países pesquisados. Quase um terço da população roda mais de 2,5 mil quilômetros por mês (com um gasto de aproximadamente mil reais em combustível), trecho equivalente a uma viagem de Floranópolis/SC a Palmas/TO. Sistemas autônomos e compartilhados tem enorme potencial para aproveitar melhor todos esses deslocamentos – subtraindo da equação os gastos com motoristas.

O que precisa para o carro autônomo ser uma realidade

Para que uma tecnologia se torne disponível para os usuários, é necessário que as pessoas sejam receptivas a ela. Temos “um nível de exigência maior para as decisões tomadas por máquinas do que para decisões tomadas por humanos, porque as máquinas não deveriam cometer erros” explica Steven Choi, da divisão de carros autônomos do Uber. “As pessoas já estão dispostas a dar uma chance aos carros autônomos? Acho que isso vai demorar um pouco”, observa.

Por outro lado, dirigir um carro é uma atividade extremamente perigosa, mesmo em países como os Estados Unidos. “Tragicamente, nós vemos diariamente que essa é uma atividade insegura, muitas vezes, por uma série de motivos. E o motivo número um são os motoristas humanos”, corrobora Sven Beiker. Estamos atravessando, portanto, um cenário no qual reconhecemos que um carro dirigido por humanos é uma das coisas mais inseguras de nossa sociedade, mas ainda não confiamos nessa tal tecnologia do futuro que nos colocará dentro de carros sem sequer um pedal de freio para controlarmos.

Se tirássemos todos os veículos das ruas, eliminássemos todas as permissões para dirigir e deixássemos apenas carros autônomos nas avenidas, já teríamos um sistema mais seguro que o atual, de acordo com os especialistas. A dificuldade está em fazer com que carros autônomos convivam com pares dirigidos por seres humanos. É esse cenário de coexistência entre os dois modelos que enfrentaremos nas próximas décadas. 

E, mesmo num futuro longínquo, provavelmente continuaremos convivendo com as duas propostas. Se as pessoas quiserem ter seus próprios carros, seguirão com o direito de fazê-lo. Será como na aviação: “nem todos tem o seu avião próprio, mas se as pessoas quiserem comprar um avião e pilotá-lo, é totalmente possível na sociedade moderna. Só que a maioria das pessoas opta por usar uma companhia aérea para se deslocar”, compara Choi.

Detroit e a fabricação de carros

Detroit é o símbolo mundial da fabricação de carros. A cidade representa a indústria automotiva e toda a importância que as montadoras tiveram no último século. Mas a mobilidade como um serviço tende a mudar um pouco esse panorama. Assim como a indústria da aviação tem alguns poucos fabricantes e dezenas de companhias áreas utilizando as aeronaves, a maior parte da receita do mercado de carros ficará nas mãos dos operadores, no futuro. 

Por exemplo, a Boeing, maior fabricante do mundo de aviões, registrou um lucro 8,2 bilhões de dólares em 2017. A Delta, 3ª maior operadora do mundo, lucrou 3,5 bilhões de dólares no mesmo período. A Boeing é uma entre pouquíssimos fabricantes existentes e a Delta é uma entre dezenas e dezenas de companhias aéreas. 

De principais participantes do mercado de mobilidade automotiva, as montadoras estão sendo desafiadas em seu modelo de negócio. Se não se transformarem e aproveitarem as oportunidades, ficarão à margem do segmento. “Nós já estamos vendo montadoras entrando nos serviços de mobilidade e empresas de tecnologia também participando desse espaço. Mas isso não se limita a essas indústrias, em nossa experiência. Ano passado lançamos um serviço de compartilhamento de carros para uma seguradora que estava percebendo que, como as pessoas no futuro poderão deixar de comprar carros, isso deverá afetar seus negócios”, relata Tiku, da Ridecell.

Essa integração é a chave para as próximas décadas de empresas como Ford ou Hyundai. “Acreditamos na colaboração. Especialmente, na indústria automotiva, o futuro da mobilidade não estará nas mãos de apenas uma empresa que será vencedora, mas na colaboração entre montadoras, fornecedores e criadores de conteúdo”, afirma Sobhan Khani. 

Nesse cenário, algumas montadoras já estão se posicionando como fabricantes, como a Boeing. Outras estão buscando modelos complementares, como a Delta. Ainda que não saibam muito bem o que vai funcionar nos próximos anos, as gigantes do setor têm se envolvido cada vez mais tanto no desenvolvimento de carros autônomos, quanto em outras alternativas de mobilidade como carsharing, bicicletas, caronas e até carros voadores. Quais destes testes terão sucesso? Esse é uma pergunta que vale mais de 1 trilhão de dólares. Para Ricardo Longo, “os carros autônomos vieram para ficar e estarão totalmente adaptados em nossa sociedade muito antes do que a gente possa imaginar”.

Por: Pedro Conte, jornalista para a PARAR Review

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