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27/03/2018

“Acredito que nos próximos 5 anos, o mercado de frotas no Brasil estará no mesmo nível de maturidade do europeu”, essa é a projeção de Cleber Kouyomdjian, executivo com 17 anos de experiência na área de Serviços Financeiros e Frotas de Veículos e conselheiro do Instituto PARAR para a América Latina. Economista por formação, Kouyomdjian iniciou suas atividades no segmento em 2000, onde teve a oportunidade de trabalhar em diferentes áreas, passando por Direção de Operações, Comercial e Marketing até chegar à Direção Geral. Nessa trajetória, passou por empresas líderes de mercado mundial como Hertz, LeasePlan, Arval e Relsa, o que lhe permitiu ter uma ampla visão do segmento.

Kouyomdjian teve a oportunidade de conhecer melhor o mercado da América Latina enquanto presidente da filial brasileira de um importante grupo chileno. “Percebi, nesse momento, que o mercado da região começa a evoluir como o Brasil de dez anos atrás, mas agora, com uma velocidade imensamente maior. Também lembro que, falando do Brasil, alguns desafios foram vencidos, como por exemplo: as dificuldades geográficas de um país com a extensão territorial como o nosso; atender as exigências burocráticas do país, que elevam o custo e reduzem a eficiência em diversos processos e, por fim, a nossa situação econômica que sempre trouxe uma previsibilidade bastante baixa e requer muito mais atenção para evitarmos surpresas no longo prazo”.

É sobre essa evolução que Cleber Kouyomdjian conversou com a PARAR Review. Confira a entrevista:

Como você avalia o cenário da gestão de frotas leves na América Latina? Evoluímos nos últimos anos?

Sem dúvida alguma o cenário da gestão de frotas tem evoluído nos últimos anos, alguns países mais que outros, mas percebo que estamos todos seguindo a mesma direção, ou seja, um setor cada vez mais globalizado e com excelente nível de profissionalização. Dos países da América Latina, o Brasil e o México evoluíram bastante nas últimas décadas, principalmente após a crise de 2008, na qual foi-se necessária uma melhor compreensão das estruturas de custo, como valor residual, custo de combustível, custo de oportunidade, entre outros fatores importantes para uma correta análise do TCO.  

Iniciativas como a do Instituto PARAR também foram fundamentais para a evolução de profissionais do setor de frotas no Brasil, trazendo novas informações e preparando os profissionais que nele atuam, impulsionando assim análises e o processo de amadurecimento do setor.

Com isso, toda a cadeia ligada a frotas evoluiu. A cada dia novos facilitadores surgiram e ainda surgem para acelerar esse processo, que, comparativamente, ainda está há alguns anos atrás de países europeus ou americanos, mas seguimos em alta velocidade. Já em países como Chile, Peru, Colômbia e Argentina, a gestão de frotas está em pleno desenvolvimento, temos a presença de Empresas Globais que já estão habituadas com uma gestão profissional, fornecedores internacionais começam a surgir e, como consequência, aumentam as oportunidades no setor, existindo ainda bastante espaço para evoluir. Chile e Peru iniciaram esse movimento e estão mais adiantados, o conceito de TCO começou a surgir somente no último ano, até então a maior preocupação estava em suprir as necessidades operacionais dos veículos. A rede de fornecimento está se preparando e se atualizando para atender as necessidades dos frotistas. Já a Colômbia, está em uma fase mais embrionária, ainda preocupada com soluções operacionais e o conceito TCO ainda é inexistente, mas o processo de desenvolvimento está ocorrendo em uma velocidade bastante grande, o que demonstra excelentes oportunidades para todos envolvidos na cadeia de fornecimento e clientes.

Ainda estamos muito atrás do que acontece na Europa?

Na minha opinião, a distância entre Brasil e Europa está bem menor que no passado. Arrisco fazer um comparativo em que, em 2008 estávamos com quase 10 anos de atraso comparando com a Europa, hoje esse “delay” é de cerca de 2 a 3 anos somente. Acredito que nos próximos 5 anos o Brasil estará no mesmo nível que os países Europeus, com soluções específicas para atender o mercado brasileiro.

Evidente que o cenário econômico e político que vivemos atualmente dificulta e atrasa qualquer evolução, mas em termos gerais, o Brasil está preparado operacionalmente. As montadoras de veículos e a rede de serviços estão com excelente nível tecnológico, empresas de gestão de frotas globais também apresentam excelente nível de serviços e conhecimento. Porém, ainda acho que precisamos vencer algumas barreiras e colocar em prática as teorias que conhecemos, utilizar a informação e a tecnologia a nosso favor. O Gestor de Frota também precisa evoluir e focar nas ações impactantes à sociedade; a busca constante por sinistralidade 0, redução de emissão de poluentes, buscar soluções de mobilidade para aumentar a eficiência e reduzir o tempo de locomoção e o trânsito, ainda são pontos que merecem atenção.

Quais fatores ou mudanças foram essenciais para essa virada de cenário no Brasil?

Como comentei, a profissionalização do setor foi fundamental. Empresas possuidoras de veículos estão mais preparada e preocupadas na eficiência financeira relacionada à frota de veículos. Nas décadas passadas, essa era uma área com pouca atenção e até mesmo com baixo nível de profissionalização. Hoje em dia, grande parte do setor tem total compreensão das ineficiências financeiras que uma frota mal gerida pode ocasionar e estamos muito próximos do que se vê em mercados evoluídos como o Europeu.

Parte dessa evolução também é consequência do surgimento de grandes fornecedores globais, as chamadas empresas de terceirização, habituadas com mercados mais evoluídos que influenciaram todo o setor e atuam de forma consultiva e que trouxeram para o mercado uma maior eficiência financeiras e operacionais. Não podemos deixar de comentar também a influência das montadoras de veículos no Brasil, que também foram fundamentais para essa evolução, com produtos específicos para frotas e de excelente qualidade técnica e boa cobertura da rede de atendimento no pós-vendas focada nos clientes chamados frotistas. É importante ressaltar que o Brasil, hoje, possui grande influência na evolução do mercado da América Latina, estamos “exportando” conhecimentos, profissionais e tecnologias para os principais países.

O que você acha que ainda precisa ser mudado para que a gestão de frotas do Brasil e da América Latina seja ainda mais profissionalizada?

Ainda existe espaço de evolução em gestão de frotas, acredito na necessidade de termos plataformas de gestão de frotas totalmente automatizadas e integradas, que consigam cruzar informações de telemetria, consumo de combustível, manutenção, multas, pontuação, acidentes, entre outros, e que sirvam de indicadores para todas as tomadas de decisão, tanto do gestor de frota como do condutor do veículo. A meu ver, esse processo ainda é um pouco manual, vindo de diferentes plataformas o que dificulta o processo. Outro ponto de atenção e que também vêm sofrendo uma importante evolução e que influenciará positivamente na gestão de frotas está ligada aos meios de pagamentos, que tornam o processo cada vez mais eficiente, rápido e seguro.

Quando se trata de oportunidades, como você enxerga o futuro da gestão de frotas leves na América Latina?

Avaliando o setor no médio e longo prazo, estamos atravessando um momento importante na busca de “soluções de mobilidade urbana”. Tudo o que conhecemos hoje está mudando. Acredito realmente que o diferencial vai surgir por meio de soluções tecnológicas, em que o carro passa a ter um papel menos importante, dando lugar ao serviço “embargado” nessa cadeia ligada ao veículo. Acho realmente que o conceito do chamado “veículo compartilhado” terá, em um curtíssimo espaço de tempo, uma importância fundamental nos países da América Latina, podendo se apresentar como uma importante alternativa no segmento de frotas. Ainda pensando nos países da América Latina, acredito que nos próximos 5 anos, os principais países estarão no mesmo nível de maturidade que o Brasil e México, existindo somente algumas necessidades pontuais específicas de cada um.

Você trabalha com frotas? Conta para gente sua opinião sobre o futuro das frotas no Brasil.

Por: Karina Constancio, Coordenadora de Conteúdo da WTM, para PARAR Review. 

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