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20/08/2020

De fontes renováveis, os biocombustíveis são uma alternativa aos combustíveis fósseis e devem ampliar participação na matriz energética brasileira nos próximos anos

Com extensas áreas agricultáveis, muito sol, água e uma flora rica e diversa, o Brasil apresenta condições bastante favoráveis à produção de biocombustíveis, alternativa menos poluente que os combustíveis de origem fóssil, como a gasolina. Segundo dados da Associação Brasileira de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), o país é hoje o segundo maior produtor de etanol e o segundo maior produtor e consumidor de biodiesel do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Os biocombustíveis são derivados de matérias-primas renováveis, como gorduras animais e óleos vegetais, oriundos, por exemplo, do milho, da soja e da cana-de-açúcar. No Brasil, o etanol e o biodiesel são os biocombustíveis líquidos mais conhecidos. Mas, outras alternativas já aparecem, como o biometano, biocombustível gasoso oriundo da decomposição de resíduos orgânicos por bactérias. 

Para o empresário Erasmo Battistella, presidente da Aprobio e da BSBIOS, empresa que, em 2019, contribuiu com 10,28% do volume total de biodiesel no Brasil, os biocombustíveis estão em consonância com os anseios do país de obter segurança energética e alimentar, e devem ocupar cada vez mais espaço nas cadeias produtivas brasileiras. 

Dentre as vantagens dos biocombustíveis, o empresário cita a diminuição das emissões de gases de efeito estufa, em comparação aos combustíveis de fontes não renováveis; a inserção de agricultores familiares e, portanto, geração de empregos; e a influência positiva no PIB, pois diminuem a dependência e a importação de combustíveis fósseis.

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), mesmo com a produção de biocombustíveis, o Brasil depende de importação de derivados de petróleo para atender o mercado interno. Nos últimos seis anos, o país gastou US$ 51 bilhões de dólares com a importação de derivados (diesel, gasolina e querosene de aviação). 

O professor José Domingos Fabris, doutor em Química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor emérito da mesma instituição, explica que a emissão de gás carbônico para a atmosfera, por conta da queima de biocombustíveis, não é igual zero. 

“É preciso ter em conta todas as etapas da produção agrícola da biomassa e do processamento industrial, que consomem outras formas de combustíveis não renováveis e que tendem a aumentar a proporção de carbono na atmosfera”

O professor diz também que o rendimento dos biocombustíveis é, ainda, um pouco menor que os combustíveis refinados de petróleo, mas que a tecnologia flex permitiu um salto de qualidade do rendimento e de comodidade para o usuário.

Para o avanço dos biocombustíveis no Brasil, o empresário Erasmo Battistella defende a importância da pesquisa científica, desenvolvida por instituições públicas ou privadas. “A pesquisa científica é fundamental para identificar novas matérias-primas e desenvolver tecnologias para cultivo, extração, aproveitamento de produtos, reaproveitamento de resíduos e para melhorar a produtividade e a qualidade nos processos já em uso”, finaliza. 

Comparativo com os elétricos

Até aqui, muito se falou dos biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis, ou seja, de fontes não renováveis. No entanto, vale lembrar dos veículos elétricos, que também levantam a bandeira da sustentabilidade – apesar de, ainda, representarem uma parcela ínfima da frota brasileira, o equivalente a 0,007%, ou 8.182 veículos, de uma frota total de 103,38 milhões, segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). 

Para o empresário Erasmo Battistella, presidente da Aprobio, a diferença em relação ao sistema elétrico é que, no caso dos biocombustíveis, não é necessário fazer nenhuma adaptação nos veículos existentes, nem investir em grandes estruturas de fornecimento de energia para as frotas. 

Sobre o assunto, o professor José Domingos Fabris explica que o carro elétrico requer baterias especiais, que sustentarão o acionamento dos motores e não há, na operação, emissão de gases por combustão. No entanto, em âmbito maior, não se elimina o uso de fontes de energia não renováveis.

Importante ressaltar que, segundo Fabris, no Brasil, cerca de 80% da geração de eletricidade vêm de usinas hidrelétricas, que são fontes renováveis. Além disso, é cada vez maior o uso de energia de outras fontes renováveis, como eólica e solar. 

Por outro lado, o professor acrescenta que, devido ao aumento do consumo, tem-se requerido às usinas termelétricas movidas a óleo diesel, carvão ou gás. “A manutenção da carga das baterias dos veículos elétricos requererá fontes extras de eletricidade. Certamente, por termelétricas”, avalia o professor.

Independentemente das particularidades de cada sistema, tanto os biocombustíveis, como os veículos elétricos, se apresentam como alternativas ao combustíveis fósseis e necessitam de políticas públicas e incentivos governamentais para ganhar espaço na sociedade, rumo a um futuro mais sustentável. 

RenovaBio

Com objetivo de expandir a produção de biocombustíveis no Brasil, foi instituído em 2017, o RenovaBio, política pública de biocombustíveis do governo federal. O que se espera é que com a expansão dos biocombustíveis, haja uma redução das emissões de gases de efeito estufa no país. 

Além disso, a expectativa, de acordo com o MME, é que a dependência de importações de derivados do petróleo caia dos atuais 11 bilhões de litros para cerca de 5 bilhões de litros em 2030. Outra meta é ampliar a participação dos biocombustíveis para 18% na matriz energética até 2030. 


No Paraná, empresa aposta no biometano

Localizado em Foz do Iguaçu, o Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás) atua, desde 2014, no avanço tecnológico para produção de biogás, para energia elétrica e térmica, e biometano, para abastecimento de frotas de veículos.

Segundo Rafael González, diretor presidente do CIBiogás, o biogás é originário de uma composição de gases produzido a partir da decomposição de materiais orgânicos, como fezes de animais, esgoto doméstico e restos de alimentos, por exemplo. Quando processado, o biogás transforma-se em biometano, que se apresenta como uma solução para veículos leves e pesados. 

Para González, uma das principais vantagens do biometano é o fato do biocombustível ser proveniente de um tratamento de resíduos que antes eram considerados passivos ambientais, ou seja, o lixo produzido pelas empresas. 

“O biometano é um dos protagonistas do ano, afinal, grandes marcas estão investindo no desenvolvimento de veículos que apenas aceitam o abastecimento sustentável. Ele é uma fonte segura e com menor custo de produção, se desenvolvido localmente”, destaca. 

Distribuidora gaúcha produz biodiesel para frota

Desde 2016, a Camaquã Distribuidora produz o próprio biodiesel para a frota de 64 caminhões, que distribui alimentos em 162 municípios do Rio Grande do Sul. O biocombustível é produzido a partir do óleo de fritura dos clientes da empresa, como lanchonetes e restaurantes. 

Segundo o diretor comercial da Camaquã, Márcio Silva, a opção pelo biocombustível vem de uma preocupação com o meio ambiente. Para se ter uma ideia, 1 litro de óleo de cozinha usado pode poluir até 1 milhão de litros de água. 

O empresário investiu cerca de R$ 500 mil na compra no galpão e da usina, que tem capacidade de produção de até 15 mil litros de biodiesel por dia. No entanto, Silva só consegue captar em torno de 10 a 20 mil litros de óleo por mês. “A gente nota que a população não tem essa conscientização, ainda”, lamenta. 

De qualquer forma, dos 100 mil litros de diesel consumidos pela distribuidora todos os meses, 15% já é composto por biodiesel de fabricação própria. “Cada litro de óleo que a gente consegue tirar da água já é uma vitória”, comemora o empresário. “É uma luta diária, mas eu acredito que quando o descarte correto se tornar obrigatório, a nossa captação vai melhorar bastante”, finaliza. 

Por: Beatriz Pozzobon para a PARAR Review.

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