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09/08/2019

Você dá atenção para o sinal amarelo? Os números do mais recente relatório do Seguro DPVAT, produzido pela Seguradora Líder, mostram dados alarmantes, os quais colocam a cultura de segurança no trânsito em um lugar distante no horizonte brasileiro.

No último ano, o seguro realizou pagamentos referentes a mais de 320 mil indenizações para casos de morte, invalidez permanente e de Despesas de Assistência Médica e Suplementares (DAMS). As motocicletas – 27% da frota nacional – foram responsáveis por 75% das indenizações de 2018, acumulando mais de 246 mil pagamentos.

Com o objetivo de minimizar estatísticas tão preocupantes, o Movimento Maio Amarelo conscientiza motoristas, passageiros e pedestres. O trabalho do movimento engaja a sociedade em prol da Década de Ação para Segurança no Trânsito, criada pela ONU em maio de 2011.

De acordo com um levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) com base em dados do Ministério da Saúde, nos últimos dez anos os acidentes de trânsito deixaram 1,6 milhão de brasileiros feridos – o que representou um custo de quase R$ 3 bilhões ao Sistema Único de Saúde (SUS).

José Ramalho, Diretor Presidente do OBSERVATÓRIO Nacional de Segurança Viária (ONSV) – criadores do Movimento Maio Amarelo –, ressalta que o aumento da frota, principalmente de motocicletas, provoca um impacto no número de acidentes de trânsito.

Aferir estatísticas, criar metas e elaborar um planejamento são fundamentais para a redução de acidentes no trânsito. De acordo com Ramalho, para que mudanças ocorram, três fatores precisam estar articulados.

A participação das empresas, dos municípios e das entidades que se mobilizam em prol da criação de uma cultura de segurança é certificada pelo Movimento Maio Amarelo com o selo Laço Amarelo. “A adesão das empresas ao Laço Amarelo é permanente, o que motiva a ter ações durante todo ano. Queremos deixar um legado para o Brasil, que é o de ter um trânsito que respeite a vida, que seja mais seguro e que deixe de vitimar tantos seres humanos”, completa Ramalho. 

Iniciativas que melhoram o trânsito

Milad Kalume Neto, Business Development Manager da JATO Dynamics, salienta que a problemática do trânsito brasileiro também está relacionada com a infraestrutura. Sinalizações ruins, estradas com baixa qualidade e falta de fiscalização são elementos que combinados com o despreparo do motorista e o excesso de velocidade tornam o trânsito brasileiro tão violento. Para Neto, a “ingerência do governo sobre as montadoras”, em relação à segurança ativa dos veículos, é importante porque “se deixar para as montadoras desenvolverem a cultura do brasileiro para carros, elas vão optar por um custo baixo, para ser atrativo para o cliente”, em detrimento da construção de uma cultura de segurança efetiva. 

Um exemplo é o programa Rota 2030, o qual estabelece novos marcos e novas obrigatoriedades. Além de estabelecer previsibilidade para o setor automobilístico, o programa firma um compromisso de eficiência energética e de avanços no quesito segurança veicular.

O sinal é amarelo, mas o alerta é vermelho 

Na contramão do que dizem os especialistas e entidades ligadas à mobilidade, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) propôs alterações no Código de Trânsito Brasileiro.

Entre as mudanças está a não renovação dos contratos dos radares de fiscalização de velocidade nas rodovias sob a responsabilidade da União, medida que provoca uma cisma em relação às ações desempenhadas por empresas e entidades que visam a construção de uma cultura de segurança no trânsito. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o excesso de velocidade é considerado um ponto essencial a ser combatido em busca da redução de mortes. 

No mundo, segundo a OMS, acidentes de trânsito matam 1,25 milhão de pessoas por ano, o que significa um custo para a maioria dos países de 3% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Já no Brasil, de acordo com o Datasus, sistema que compila informações do SUS, a cada 15 minutos uma pessoa morre vítima de acidente. “O primeiro é a educação de trânsito nas escolas. Para isso criamos o programa EDUCA, aprovado pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e pelo Ministério de Educação (MEC). O segundo é a formação do condutor pautada em uma condução segura. E o terceiro é o Plano Nacional de Redução de Mortes no Trânsito, que tem como meta a redução dos acidentes nos municípios”, destaca. 

Para José Ramalho, a retirada de radares é um contrassenso, pois os mesmos estão presentes nas vias para proteger as pessoas. “Para acabar com a indústria da multa, basta os motoristas andarem dentro da velocidade, não ultrapassarem em lugares indevidos e não usarem o celular”, alerta.  Já Milad Kalume Neto aponta que essas decisões “precisam ser pautadas em estudos técnicos e criteriosos, a fim de aferir o que é mais importante para o cidadão”, completa.

O que os especialistas dizem

Especialistas em cultura de segurança, Rogério Nersissian e Dr. Dirceu Rodrigues receberam o título de embaixadores da Segurança do Instituto PARAR, durante o evento PARAR On The Road Curitiba. A educação é um ponto de convergência quando o assunto é a segurança no trânsito. 

Para o Dr. Dirceu Rodrigues, Diretor de Comunicação e do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Abramet, falta educação de trânsito nas escolas para as crianças. Um desafio, por exemplo, é incluir dentro da química, da física e da biologia, conjunturas relacionadas ao trânsito. Outros pontos importantes são a adaptação dos cursos de formação de condutores à realidade e a necessidade de reciclagem, já que “muitos aprendem a dirigir aos 18 anos e não voltam ao curso de formação para conhecer as novas leis, as sinalizações, novos veículos e novas tecnologias”, alerta.  

A educação, o treinamento e a atenção aos colaboradores são aspectos que Rogério Nersissian, LATAM HSSE Manager da SHELL, elenca como primordiais para que as empresas construam uma cultura de segurança. A SHELL possui “12 regras que salvam vidas” e que são aplicadas mundialmente. Quatro delas são aplicadas diretamente ao trânsito: 1) não usar celular e não ultrapassar a velocidade máxima permitida nas vias; 2) não dirigir sob efeito de álcool e drogas; 3) usar o cinto de segurança; 4) seguir um plano de viagem. 

“Pelo o que a gente calcula, após a implementação dessas regras centenas de vidas já foram salvas”, conta Nersissian. Para fomentar uma cultura de segurança é preciso estar atento às mudanças de comportamento. A problemática do uso do aparelho celular por motoristas é uma questão que demanda atenção especial. “Olhando para as multas do passado por velocidade e por celular, conseguimos chegar à marca de 0 acidentes com veículos leves. Isso é um passo. Uma multa é investigada como se fosse uma fatalidade, porque foi um aviso. Se eu não trato esse aviso, ali na frente pode virar um acidente”, explica. 

Sobre as alterações no Código de Trânsito Brasileiro propostas pelo Governo Federal, Dr. Dirceu Rodrigues acredita que medidas alternativas devam ser levadas em conta com o objetivo de minimizar o número de acidentes e, com isso, o diminuir “o custo absurdo do SUS por causa de acidentes de trânsito”, além da questão da previdência, pois os acidentes “incapacitam muitas pessoas para o trabalho, algumas definitivamente”. Para Rogério Nersissian, a questão não é isolada e relembra a importância de radares, policiais, professores, cursos e aulas. “Se todas essas medidas vão ajudar a melhorar o comportamento, então, elas são bem-vindas. Só o tempo vai mostrar a reposta da sociedade”, conclui.

Por: Guilherme Popolin, jornalista, para a PARAR Review.

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